É Saudade

Por que criamos a palavra saudade? Era melhor viver sem ela. Ficaria bem apenas com a lembrança, a doce e suave lembrança de seus dedos se entrelaçando nos meus, do cheiro do seu cabelo, da sua risada sem som e de tudo o que me dizia e eu não entendia.

Mas e quando a lembrança se torna saudade e lembrar se torna mais doloroso do que esquecer? 

Por que diabos inventamos a palavra saudade? Se ela não existisse, eu pelo menos não precisaria nomeá-la.

”- O que você tem Tatiana?

- Sei lá…não consigo explicar, é como se arrancassem meu fígado e triturassem, é como se meus batimentos cardíacos aumentassem e respiração ofegasse…”

Mas aí, vocês engraçadinhos vêm e resolvem inventar a porra da “SAUDADE”…então me vejo obrigada a decodificá-la e responder:

”- O que você tem Tatiana?

- É saudade.”


Olhei o copo na mesa. Cheio. Whisky puro. Bebi num gole só. O despertador tocou.
Olhei o copo na mesa. Cheio. Bebi sem saber o que era. O despertador tocou.
Olhei o copo na mesa. Não bebi. O despertador tocou.
Olhei o copo na mesa. Bebi e cuspi. O despertador tocou.
Não olhei, mas o copo estava lá. O despertador tocou.
Olhei a mesa. Não havia nada. O despertador tocou.
Olhei. Haviam vários copos, alguns cheios, outros não. Admirei, mas não bebi. O despertador tocou.
Olhei os vários copos na mesa. Bebi todos, até não restar mais nada. O despertador tocou.
Olhei os vários copos na mesa. Bebi aquele que me mandaram beber. O despertador tocou.
Olhei os vários copos na mesa. Bebi o único que me interessava. O despertador tocou.
Quem toca é o despertador ou sou eu que o toco?


Eu sou da Lua

Quando veio a madrugada
Seus olhos de água pediram:
Me veja e me olhe de frente!
Antes que eu pudesse perceber o erro
Me visto de ferro, escondo e entrego o que eu não posso dar

E se eu erro no passo
Acerto no laço 
Pra depois desatar

Eu sou da rua e você de Lua
Te quero na cama e você me chama pra conversar
Nada fala, e acha graça de dizer tanto sem falar
Se pinta e penteia pra comprar pão
Não gosta de brilho, barulho, tumulto, 
lençol enrolado, se vira pro lado
E diz logo um não

E se eu erro no passo
Acerto no laço
Pra depois desatar

Desafio o compasso
Tropeço e reparo
Refaço o caminho pra te encontrar
Desculpe meu jeito sincero, 
Mas antes que eu minta, me ponho a falar
Você veio mansinho, fiquei com vontade
Agora eu quero, não dá pra negar

Se esqueça se um dia talvez eu te faça chorar
Não esqueça, sou criança ainda aprendendo a amar.


Falar de Amor

“Que o meu medo do futuro

Não me impeça de seguir em frente

E a minha vontade de viver

Não me faça esquecer quem fui

Pois parte de mim é o meu passado

E a outra…ainda não sei

Que o meu direito de ir e vir

Não seja incapacitado pelo seu direito de me bloquear

E que a linha tênue que nos separa

Não vire um pontilhado de interesses egoístas

Pois a minha liberdade começa onde a sua termina

Que o fator que nos julga

Não nos condene com a autocrítica

E que o espelho que nos vemos

Não distorça a imagem refletida

Pois nossos corpos já foram por demais mutilados

Que a minha liberdade de expressão

Me permita perceber as consequências

Mas que as palavras de bem

Sejam sempre escutadas

Pois as pessoas esqueceram que ouvir

É mais sábio que falar

Que a violência não me prenda em casulos

Que a minha família evite podar minhas escolhas

Que o sexo reserve seu dever de ser feito com carinho

Que as crianças vivam as suas infâncias resguardando a inocência

Que o dinheiro não seja mais importante que o princípio

Que o amor venha antes da Ordem e Progresso

Que não existam amores impossíveis, e sim escolhas mal feitas

Que se prevaleça a vontade de ser feliz e haja coragem para isso

Que eu possa gritar aos sete ventos que amo, e é só isso que importa

Pois não há nada mais libertador

Do que falar de amor…”


I’ve Got the keys to the highway

Coloco o CD, aperto o play.

Acho que a culpa é da cadência.

Dá-se o tom original, ela cresce mas ainda não é a hora, então retrocede.

O restart foi dado.

Agora sim. O corpo já está pedindo.

E no crescente como o prelúdio do orgasmo chega-se ao ápice, o topo, o pico, a euforia.

E como todo e bom ato cíclico, o pós-gozo é esperado. 

Volta-se ao tom inicial.

É, a culpa deve ser da cadência…

Ou então do choro da guitarra, do choro da gaita, do choro do piano…E meu corpo chora junto, mas até as lágrimas são devidamente arrumadas.

Veja bem, a cadência está ali, querendo ou não. Os acontecimentos são apenas aquilo que já se espera.

Se for insistente pode-se até acrescentar uma Blue Note, só para dar um florido. Nada além disso, ok? Deve-se seguir uma tragetória pré-formulada.

Está pensando o que? Os originais são apenas 36. Esse é o número 5. Não me pergunte os outros 31.

Voltemos à bateria. Ela não está só, tem sempre o contra-baixo como companheiro de viagem.

Ah, o casamento perfeito que rege as batidas do coração.

Vai acontecer novamente…ai…o arrepio começa da espinha e se espalha como sinapses por todo corpo e alma.

Sim, alcança a alma.

Minha alma dança, chora e goza nessa cadência de ouro.

Metáfora? É vida.

I’m feeling the blues, baby.